No tempo em que a dança capixaba não saía dos seus limites, a Companhia de Dança Neo Iaô, liderada pelo bailarino, coreógrafo, cenografista, figurinista e músico Magno Godoy, arrebentou as amarras e se tornou referência em dança contemporânea no Estado.
Foram mais de duas décadas de pesquisa em linguagem corporal, com pura ousadia e muita fé nas opções nada convencionais desse grupo de artistas. Hoje a Neo Iaô não existe mais como companhia, mas ela se transformou em Cia. Magno Godoy (musicais) e Cia. Teatro Urgente (teatro/expressão corporal), conduzida pelo ator, diretor e bailarino, Marcelo Ferreira.
Com uma história consistente e intrigante, o IU se sentiu na obrigação de registrar e resgatar as lembranças da Neo Iaô, num bate-papo que durou mais de três horas, com os artistas Magno Godoy e Marcelo Ferreira.
Movimento Estudantil
Naquele tempo, década de 70, o Brasil vivia na ditadura militar. A maioria dos jovens eram engajados politicamente, o que não foi diferente para Magno Godoy. “Eu era contra a ditadura. Participava do diretório acadêmico, como diretor de cultura, e das assembléias estudantis, com faixa e tudo. Foi assim, nesse contexto, que surgiu o tema para a peça Do trote até a formatura. A obra era uma comédia besteirol, que tinha três correntes - a direita, esquerda e a extrema esquerda (anarquista). Tudo era motivo de deboche: o bandejão, a república, o reitor e até o próprio movimento estudantil era destruído”, relembra.
A arte para estes jovens estava vinculada às questões políticas, filosóficas e existenciais. Mas a ironia e o deboche escrachado não faltavam. Além disso, a fase também foi marcada pelos encontros na caixa d’água - violão, maconha, criação, piração e muito papo-cabeça. “Depois que nós conseguimos a democracia, a população acomodou. Acredito que o jovem está muito alienado, vamos ver onde isso vai dar. Ainda há várias coisas que precisam ser resolvidas que o estudante precisa se engajar”, reflete.
Influências
Com a presença de Marcelo Ferreira, estudante de jornalismo, no grupo, as coreografias foram se tornando mais sofisticadas. Substituíram o trabalho mambembe para outro com mais sofisticação, utilizando-se basicamente da dança contemporânea. “Já tínhamos este intuito de questionar a linguagem corporal. Queríamos descobrir uma dança típica do Brasil, a dança que descobrisse as raízes da nossa cultura, dos nossos arquétipos, a nossa estética. Falar sobre a caatinga, o sertão e, principalmente, a miséria do terceiro mundo”, relembra Godoy.
Balé Clássico
Magno considera a dança no Brasil difícil para o homem. Há discriminação que já começa com a própria concepção do balé clássico. “Eu tinha uma discussão interna como bale clássico, pois ele trabalha muito da cintura para baixo e o braço só servia para suspender as meninas. Além disso, o balé surgiu com a corte, ou seja, já tem no berço a questão discriminatória social – há uma primeira bailarina e o resto são camponesas. Então eu usei o acabamento do balé e quis usar essa coisa redonda que ele faz, no seio da dança contemporânea” explica o coreógrafo.
Neo Iaô
O nome Neo Iaô significa Novos Iniciados. Ele surgiu através dos estudos do terceiro mundo, a miséria e nos rituais. “A palavra tem influência africana, e significa o ritual de iniciação de um caminho. Magno transpôs este significado para o contexto brasileiro, pois as temáticas das peças sempre remeteriam às questões sócio-políticos do país. Acrescentamos também, a loucura e a sexualidade, que era nosso diferencial. Começamos a usar tapa-sexo e, depois, o emplasto, para representar um humano sem sexo. Isso chocou a cidade toda”, diverte Magno Godoy.
Kazuo Ono
Através do Festival de Salvador, apareceu uma polêmica que falava que a Neo Iaô copiava o butô – dança desenvolvida no Japão. “Conhecemos o trabalho de Kazuo Ono, mestre do butô, e nos identificamos muito com ele. Mas era só uma coincidência e que nosso trabalho era resultado de uma pesquisa interna e de linguagem. Disse aos críticos que não havia copiado ninguém, e que sempre fui um eterno pesquisador. Eu me reciclo a todo o momento, onde tudo, até no palco, é passível de mudança. Até porque toda obra é inacabada, nenhuma peça é tão plena para dizer que ela está fechada”, diz Godoy.
Vídeo-dança
Magno afirma que não existe diploma para ser artista. Com essa consciência, os bailarinos abandonaram o desejo de correr atrás desse diploma e acharam que, se construíssem uma excelente carreira, isso bastaria, o que substituiria o diploma. Apresentaram nos principais centros culturais do país, além da Argentina. “Ai veio à reflexão: o que pode ajudar na nossa luta? É preciso registrar isso no tempo. Assim, começamos a fazer vídeo-dança, pois teatro e dança são artes efêmeras”, afirma.
Incentivos culturais
Os órgãos públicos, o ministério da cultura, as secretarias estaduais e as leis que existem, tiram um dinheiro que é do povo e revertem para a cultura. Mas eles só querem te dar o dinheiro para você montar. Agora, para divulgar o trabalho, que é três vezes o valor disso, nada. Se eu fosse global, a platéia estaria cheia. Então eu só posso ir pro palco quando eu for global? Os órgãos de cultura não querem saber de platéia, querem se desincumbir desse compromisso. Você pega o dinheiro, presta conta daquilo tudo e se deu platéia, não interessa. Mas qual a finalidade da arte, não é a platéia? Arte sem platéia não é arte, pois arte é a visão do ser humano sobre a obra. A arte precisa ser consumida, vista. É igual a um pão”, desabafa Godoy.
Cia. Magno Godoy
Magno relembra os tempos em que os bailarinos eram fiéis a uma só companhia. Ele diz que esta época romântica não existe mais. “Hoje não posso me prender a bailarino, porque se amanhã eu precisar dele, ele pode não estar disponível. Então veio a idéia em gastar com tecnologia em cima de mim mesmo. Mudei o nome para Companhia Magno Godoy. Aproximei, também, meu trabalho para ser mais popular. Juntei a dança contemporânea, a dança popular e a música em uma só peça. Eu sempre sonhei muito alto, então, como não tive condições, eu faço daqui Berlim, Nova York, ou seja, me comporto como se estivesse lá e levo a mesma seriedade. O próximo trabalho vai ser sobre Maria Ortiz”, completa.
Cia. Teatro Urgente
Marcelo Ferreira desenvolve um outro tipo de trabalho, mesclando expressão corporal com o texto. “Considero que o meu trabalho no Teatro Urgente está mais na linha Neo Iaô que do próprio Magno Godoy. Nosso último trabalho fala sobre o homem comum, de hoje, um Zé-ninguém – sem perspectiva, sem sentimento, vazio. Fazemos uma colagem com o texto de Nietche e Haich. Faço muitas pesquisas para os textos, atuações e tento sempre inovar e apresentar trabalhos originais. Além disso, tenho muita vontade de resgatar a dança contemporânea aqui no estado”, revela Ferreira.
Foram mais de duas décadas de pesquisa em linguagem corporal, com pura ousadia e muita fé nas opções nada convencionais desse grupo de artistas. Hoje a Neo Iaô não existe mais como companhia, mas ela se transformou em Cia. Magno Godoy (musicais) e Cia. Teatro Urgente (teatro/expressão corporal), conduzida pelo ator, diretor e bailarino, Marcelo Ferreira.
Com uma história consistente e intrigante, o IU se sentiu na obrigação de registrar e resgatar as lembranças da Neo Iaô, num bate-papo que durou mais de três horas, com os artistas Magno Godoy e Marcelo Ferreira.
Movimento Estudantil
Naquele tempo, década de 70, o Brasil vivia na ditadura militar. A maioria dos jovens eram engajados politicamente, o que não foi diferente para Magno Godoy. “Eu era contra a ditadura. Participava do diretório acadêmico, como diretor de cultura, e das assembléias estudantis, com faixa e tudo. Foi assim, nesse contexto, que surgiu o tema para a peça Do trote até a formatura. A obra era uma comédia besteirol, que tinha três correntes - a direita, esquerda e a extrema esquerda (anarquista). Tudo era motivo de deboche: o bandejão, a república, o reitor e até o próprio movimento estudantil era destruído”, relembra.
A arte para estes jovens estava vinculada às questões políticas, filosóficas e existenciais. Mas a ironia e o deboche escrachado não faltavam. Além disso, a fase também foi marcada pelos encontros na caixa d’água - violão, maconha, criação, piração e muito papo-cabeça. “Depois que nós conseguimos a democracia, a população acomodou. Acredito que o jovem está muito alienado, vamos ver onde isso vai dar. Ainda há várias coisas que precisam ser resolvidas que o estudante precisa se engajar”, reflete.
Influências
Com a presença de Marcelo Ferreira, estudante de jornalismo, no grupo, as coreografias foram se tornando mais sofisticadas. Substituíram o trabalho mambembe para outro com mais sofisticação, utilizando-se basicamente da dança contemporânea. “Já tínhamos este intuito de questionar a linguagem corporal. Queríamos descobrir uma dança típica do Brasil, a dança que descobrisse as raízes da nossa cultura, dos nossos arquétipos, a nossa estética. Falar sobre a caatinga, o sertão e, principalmente, a miséria do terceiro mundo”, relembra Godoy.
Balé Clássico
Magno considera a dança no Brasil difícil para o homem. Há discriminação que já começa com a própria concepção do balé clássico. “Eu tinha uma discussão interna como bale clássico, pois ele trabalha muito da cintura para baixo e o braço só servia para suspender as meninas. Além disso, o balé surgiu com a corte, ou seja, já tem no berço a questão discriminatória social – há uma primeira bailarina e o resto são camponesas. Então eu usei o acabamento do balé e quis usar essa coisa redonda que ele faz, no seio da dança contemporânea” explica o coreógrafo.
Neo Iaô
O nome Neo Iaô significa Novos Iniciados. Ele surgiu através dos estudos do terceiro mundo, a miséria e nos rituais. “A palavra tem influência africana, e significa o ritual de iniciação de um caminho. Magno transpôs este significado para o contexto brasileiro, pois as temáticas das peças sempre remeteriam às questões sócio-políticos do país. Acrescentamos também, a loucura e a sexualidade, que era nosso diferencial. Começamos a usar tapa-sexo e, depois, o emplasto, para representar um humano sem sexo. Isso chocou a cidade toda”, diverte Magno Godoy.
Kazuo Ono
Através do Festival de Salvador, apareceu uma polêmica que falava que a Neo Iaô copiava o butô – dança desenvolvida no Japão. “Conhecemos o trabalho de Kazuo Ono, mestre do butô, e nos identificamos muito com ele. Mas era só uma coincidência e que nosso trabalho era resultado de uma pesquisa interna e de linguagem. Disse aos críticos que não havia copiado ninguém, e que sempre fui um eterno pesquisador. Eu me reciclo a todo o momento, onde tudo, até no palco, é passível de mudança. Até porque toda obra é inacabada, nenhuma peça é tão plena para dizer que ela está fechada”, diz Godoy.
Vídeo-dança
Magno afirma que não existe diploma para ser artista. Com essa consciência, os bailarinos abandonaram o desejo de correr atrás desse diploma e acharam que, se construíssem uma excelente carreira, isso bastaria, o que substituiria o diploma. Apresentaram nos principais centros culturais do país, além da Argentina. “Ai veio à reflexão: o que pode ajudar na nossa luta? É preciso registrar isso no tempo. Assim, começamos a fazer vídeo-dança, pois teatro e dança são artes efêmeras”, afirma.
Incentivos culturais
Os órgãos públicos, o ministério da cultura, as secretarias estaduais e as leis que existem, tiram um dinheiro que é do povo e revertem para a cultura. Mas eles só querem te dar o dinheiro para você montar. Agora, para divulgar o trabalho, que é três vezes o valor disso, nada. Se eu fosse global, a platéia estaria cheia. Então eu só posso ir pro palco quando eu for global? Os órgãos de cultura não querem saber de platéia, querem se desincumbir desse compromisso. Você pega o dinheiro, presta conta daquilo tudo e se deu platéia, não interessa. Mas qual a finalidade da arte, não é a platéia? Arte sem platéia não é arte, pois arte é a visão do ser humano sobre a obra. A arte precisa ser consumida, vista. É igual a um pão”, desabafa Godoy.
Cia. Magno Godoy
Magno relembra os tempos em que os bailarinos eram fiéis a uma só companhia. Ele diz que esta época romântica não existe mais. “Hoje não posso me prender a bailarino, porque se amanhã eu precisar dele, ele pode não estar disponível. Então veio a idéia em gastar com tecnologia em cima de mim mesmo. Mudei o nome para Companhia Magno Godoy. Aproximei, também, meu trabalho para ser mais popular. Juntei a dança contemporânea, a dança popular e a música em uma só peça. Eu sempre sonhei muito alto, então, como não tive condições, eu faço daqui Berlim, Nova York, ou seja, me comporto como se estivesse lá e levo a mesma seriedade. O próximo trabalho vai ser sobre Maria Ortiz”, completa.
Cia. Teatro Urgente
Marcelo Ferreira desenvolve um outro tipo de trabalho, mesclando expressão corporal com o texto. “Considero que o meu trabalho no Teatro Urgente está mais na linha Neo Iaô que do próprio Magno Godoy. Nosso último trabalho fala sobre o homem comum, de hoje, um Zé-ninguém – sem perspectiva, sem sentimento, vazio. Fazemos uma colagem com o texto de Nietche e Haich. Faço muitas pesquisas para os textos, atuações e tento sempre inovar e apresentar trabalhos originais. Além disso, tenho muita vontade de resgatar a dança contemporânea aqui no estado”, revela Ferreira.