sexta-feira, 18 de abril de 2008

Neo Iaô - Os primeiros passos da Dança Contemporânea no ES

Esta matéria foi divulgada no site Intervensões Urbanas - no mês de abril. www.iu.art.br



No tempo em que a dança capixaba não saía dos seus limites, a Companhia de Dança Neo Iaô, liderada pelo bailarino, coreógrafo, cenografista, figurinista e músico Magno Godoy, arrebentou as amarras e se tornou referência em dança contemporânea no Estado.

Foram mais de duas décadas de pesquisa em linguagem corporal, com pura ousadia e muita fé nas opções nada convencionais desse grupo de artistas. Hoje a Neo Iaô não existe mais como companhia, mas ela se transformou em Cia. Magno Godoy (musicais) e Cia. Teatro Urgente (teatro/expressão corporal), conduzida pelo ator, diretor e bailarino, Marcelo Ferreira.

Com uma história consistente e intrigante, o IU se sentiu na obrigação de registrar e resgatar as lembranças da Neo Iaô, num bate-papo que durou mais de três horas, com os artistas Magno Godoy e Marcelo Ferreira.


Movimento Estudantil

Naquele tempo, década de 70, o Brasil vivia na ditadura militar. A maioria dos jovens eram engajados politicamente, o que não foi diferente para Magno Godoy. “Eu era contra a ditadura. Participava do diretório acadêmico, como diretor de cultura, e das assembléias estudantis, com faixa e tudo. Foi assim, nesse contexto, que surgiu o tema para a peça Do trote até a formatura. A obra era uma comédia besteirol, que tinha três correntes - a direita, esquerda e a extrema esquerda (anarquista). Tudo era motivo de deboche: o bandejão, a república, o reitor e até o próprio movimento estudantil era destruído”, relembra.

A arte para estes jovens estava vinculada às questões políticas, filosóficas e existenciais. Mas a ironia e o deboche escrachado não faltavam. Além disso, a fase também foi marcada pelos encontros na caixa d’água - violão, maconha, criação, piração e muito papo-cabeça. “Depois que nós conseguimos a democracia, a população acomodou. Acredito que o jovem está muito alienado, vamos ver onde isso vai dar. Ainda há várias coisas que precisam ser resolvidas que o estudante precisa se engajar”, reflete.


Influências

Com a presença de Marcelo Ferreira, estudante de jornalismo, no grupo, as coreografias foram se tornando mais sofisticadas. Substituíram o trabalho mambembe para outro com mais sofisticação, utilizando-se basicamente da dança contemporânea. “Já tínhamos este intuito de questionar a linguagem corporal. Queríamos descobrir uma dança típica do Brasil, a dança que descobrisse as raízes da nossa cultura, dos nossos arquétipos, a nossa estética. Falar sobre a caatinga, o sertão e, principalmente, a miséria do terceiro mundo”, relembra Godoy.

Balé Clássico

Magno considera a dança no Brasil difícil para o homem. Há discriminação que já começa com a própria concepção do balé clássico. “Eu tinha uma discussão interna como bale clássico, pois ele trabalha muito da cintura para baixo e o braço só servia para suspender as meninas. Além disso, o balé surgiu com a corte, ou seja, já tem no berço a questão discriminatória social – há uma primeira bailarina e o resto são camponesas. Então eu usei o acabamento do balé e quis usar essa coisa redonda que ele faz, no seio da dança contemporânea” explica o coreógrafo.

Neo Iaô

O nome Neo Iaô significa Novos Iniciados. Ele surgiu através dos estudos do terceiro mundo, a miséria e nos rituais. “A palavra tem influência africana, e significa o ritual de iniciação de um caminho. Magno transpôs este significado para o contexto brasileiro, pois as temáticas das peças sempre remeteriam às questões sócio-políticos do país. Acrescentamos também, a loucura e a sexualidade, que era nosso diferencial. Começamos a usar tapa-sexo e, depois, o emplasto, para representar um humano sem sexo. Isso chocou a cidade toda”, diverte Magno Godoy.


Kazuo Ono

Através do Festival de Salvador, apareceu uma polêmica que falava que a Neo Iaô copiava o butô – dança desenvolvida no Japão. “Conhecemos o trabalho de Kazuo Ono, mestre do butô, e nos identificamos muito com ele. Mas era só uma coincidência e que nosso trabalho era resultado de uma pesquisa interna e de linguagem. Disse aos críticos que não havia copiado ninguém, e que sempre fui um eterno pesquisador. Eu me reciclo a todo o momento, onde tudo, até no palco, é passível de mudança. Até porque toda obra é inacabada, nenhuma peça é tão plena para dizer que ela está fechada”, diz Godoy.

Vídeo-dança

Magno afirma que não existe diploma para ser artista. Com essa consciência, os bailarinos abandonaram o desejo de correr atrás desse diploma e acharam que, se construíssem uma excelente carreira, isso bastaria, o que substituiria o diploma. Apresentaram nos principais centros culturais do país, além da Argentina. “Ai veio à reflexão: o que pode ajudar na nossa luta? É preciso registrar isso no tempo. Assim, começamos a fazer vídeo-dança, pois teatro e dança são artes efêmeras”, afirma.

Incentivos culturais

Os órgãos públicos, o ministério da cultura, as secretarias estaduais e as leis que existem, tiram um dinheiro que é do povo e revertem para a cultura. Mas eles só querem te dar o dinheiro para você montar. Agora, para divulgar o trabalho, que é três vezes o valor disso, nada. Se eu fosse global, a platéia estaria cheia. Então eu só posso ir pro palco quando eu for global? Os órgãos de cultura não querem saber de platéia, querem se desincumbir desse compromisso. Você pega o dinheiro, presta conta daquilo tudo e se deu platéia, não interessa. Mas qual a finalidade da arte, não é a platéia? Arte sem platéia não é arte, pois arte é a visão do ser humano sobre a obra. A arte precisa ser consumida, vista. É igual a um pão”, desabafa Godoy.

Cia. Magno Godoy

Magno relembra os tempos em que os bailarinos eram fiéis a uma só companhia. Ele diz que esta época romântica não existe mais. “Hoje não posso me prender a bailarino, porque se amanhã eu precisar dele, ele pode não estar disponível. Então veio a idéia em gastar com tecnologia em cima de mim mesmo. Mudei o nome para Companhia Magno Godoy. Aproximei, também, meu trabalho para ser mais popular. Juntei a dança contemporânea, a dança popular e a música em uma só peça. Eu sempre sonhei muito alto, então, como não tive condições, eu faço daqui Berlim, Nova York, ou seja, me comporto como se estivesse lá e levo a mesma seriedade. O próximo trabalho vai ser sobre Maria Ortiz”, completa.

Cia. Teatro Urgente

Marcelo Ferreira desenvolve um outro tipo de trabalho, mesclando expressão corporal com o texto. “Considero que o meu trabalho no Teatro Urgente está mais na linha Neo Iaô que do próprio Magno Godoy. Nosso último trabalho fala sobre o homem comum, de hoje, um Zé-ninguém – sem perspectiva, sem sentimento, vazio. Fazemos uma colagem com o texto de Nietche e Haich. Faço muitas pesquisas para os textos, atuações e tento sempre inovar e apresentar trabalhos originais. Além disso, tenho muita vontade de resgatar a dança contemporânea aqui no estado”, revela Ferreira.

O Espírito Santo em pauta

Nasci em São Paulo, morei em Minas Gerais e estava na Bahia quando recebi a notícia que minha família tinha comprado um apartamento em Guarapari, litoral do Espírito Santo. Minha primeira reação foi a de estranhamento, pois conhecia muito pouco, ou quase nada, sobre o Estado. Sabia, apenas, que se localizava na região Sudeste.

Quando cheguei a terras capixabas, um pequeno grande mundo apareceu diante de mim. Belas praias, regiões serranas com identidade próprias, muros com poucas pichações e fala sem muito sotaque. A primeira vez que passei pela terceira ponte, uma atmosfera romântica envolvia a Ilha. Fiquei indignada e me perguntei por que um Estado com tantas belezas e potencialidades estava “escondido”?

Comecei a assistir televisão, ouvir rádios, ler jornais. Saía pela rua e fazia questão de conversar com os nativos. Logo percebi uma contradição entre o esforço de se divulgar o Estado e a resistência dos capixabas em assumir uma identidade.

Programas televisivos como o “Em movimento” - TV Gazeta, “Fala Espírito Santo” – TV Vitória, “Programa Estúdio” – TVE e “Jornal Guarapari” – TV Guarapari são bons exemplos do esforço em divulgar assuntos locais. Na rádio, o programa “Rock por essas bandas”, comandada pelo radialista Serjão, já estava completando dez anos divulgando a produção musical capixaba. Em contrapartida, muitos nativos relutavam em aceitar que o congo, a moqueca capixaba e as panelas de barro fazem parte da identidade do Espírito Santo.

Essas questões e tantas outras conversas com os espírito-santenses foram tomando os meus dias, meses. O que era para ser apenas férias virou endereço definitivo. Já se passaram quatro anos e ainda fico analisando como o Estado é apresentado para si mesmo e para os outros. Você já reparou como e quando o Espírito Santo está em pauta?

Que eu me lembre, os momentos em que vi o Estado aparecendo na mídia foram em assuntos relacionados com a violência e ao tráfico de drogas. Várias vezes o município da Serra despontou como sendo um dos lugares mais perigosos de se viver. Além disso, a estrada que liga Espírito Santo a Minas Gerais é cenário de muitas mortes, principalmente nos feriados.

Vamos recortar os noticiários dos últimos dias. Em pauta, a cafetina Andréia Schwartz, envolvida no escândalo com o governador de Nova York, Elliot Spitzer, nome dele, em que ela ajudou a policia norte-americana desvendar o caso. Neste domingo, o programa “Fantástico” dedicou mais de seis minutos de sua programação para exibir uma entrevista exclusiva com a cafetina internacional capixaba.

Assim, pensar a imagem do Espírito Santo frente aos brasileiros é um exercício que parece estar longe de acabar. Este é um grande desafio para os nativos e para aqueles que, por diversos motivos, abraçaram o Estado como sendo o seu.

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Perfil José Roberto Santos Neves - O comunicador e suas diversas funções

Imagine um jogo de futebol, aos quarenta e oito minutos do segundo tempo. O jogador dribla seus adversários e gol! Seu time ganha. É assim que o jornalista José Roberto Santos Neves define sua personalidade. Persistência, teimosia e garra. Com essas características que ele consegue ser o que é: jornalista, escritor, editor e músico.

Zé Roberto, como gosta de ser chamado, diz que suas influências para a escolha do jornalismo vieram da própria família. Seu avô, historiador e folclorista Guilherme Santos Neves, foi um dos fundadores do Instituto Espírito-Santense de Folclore, em 1948. Já o tio-avô foi o “lendário” político Jones dos Santos Neves, que governou o Estado por duas vezes. A paixão pela literatura veio por seus tios, os romancistas Reinaldo e José Guilherme. Mais próximos, seu irmão João Paulo é compositor e a irmã, Mária, é publicitária e uma excelente cronista nas horas vagas. “É uma paixão. A gente tem que gostar muito para seguir nesta profissão, pois as dificuldades são muito grandes”, destaca o jornalista.

Quando criança, Zé Roberto gostava de ler, escrever e, principalmente, de contar histórias. “Eu sempre li muito a Gazetinha, e aos cinco anos, inventei de fazer uma Tribuninha, como sua concorrente”, se diverte Santos Neves. Já na adolescência, ele se transformou em roqueiro, cabeludo e baterista. “Gostava mais de rock pesado. Mas hoje escuto muito samba e MPB”, explica o músico. Ele participou, como baterista, das bandas Seven, Skelter, Lucy, The Rain e Big Bat Blues Band, nas duas últimas, chegou a gravar CDs.

A transição entre o curso de jornalismo na Universidade Federal do Espírito Santo, a Ufes, para o dia-a-dia nas redações, aconteceu de maneira natural. José Roberto começou como estagiário, em 1994, no setor de pesquisa no Centro de Documentação, Cedoc, no jornal A Gazeta. Sua função era selecionar e recortar matérias dos jornais Folha de São Paulo, O Globo, Estado de São Paulo e Jornal do Brasil. “Esta experiência me fez ler, todos os dias, o que saía nos jornais. Deu uma base de conteúdo e texto, além de ter me deixado a par do que estava acontecendo”, explica o jornalista.

Fanzine. Este exercício de observação o fez detectar uma carência no jornal A Gazeta: a falta de espaço para o público juvenil. Assim, ele idealizou e desenvolveu o Fanzine, página que abordava temas de interesse dos jovens, escritos e ilustrados numa linguagem mais ousada. Este projeto virou sua monografia de conclusão de curso. Além de ter obtido a nota máxima, a proposta foi aceita pelo jornal.

O primeiro caderno foi publicado no dia dezesseis de agosto de 1995, sobre o movimento Punk. “O importante é você dar voz pra juventude, deixar os meninos falarem. É aí que o Fanzine começou a conquistar o público e ser aceito pela juventude”, revela Santos Neves. Hoje ele é publicado uma vez por semana, no Caderno Dois. Além disso, no sábado do dia 29 de março de 2003, o canal por assinatura GTV exibiu sua versão televisiva, apresentado por ele e a jornalista Bárbara Zaganelli.

Editoria. Hoje o jornalista enfrenta outros desafios como editor do Caderno Dois do jornal A Gazeta. “Há muita coisa a ser feita. Definir pautas, distribui-las, revisar textos, ver a parte comercial, além das várias colunas que têm no caderno”, revela Santos Neves. Além disso, sua preocupação está voltada em dar espaço para a cultura e artistas do Estado. “Se a gente (A Gazeta) não falar sobre nós, quem vai fazer isso? Mas não é por que é capixaba que vamos passar a mão na cabeça. A critica vai se nivelar com as produções nacionais, para que possamos evoluir”, esclarece.

Durante todo o período de sua formação, ele optou por cultura, e dentro dela, pela música. “Defendo a especialização, pois ela faz você argumentar melhor na crítica e nas matérias. Me especializei em música por me identificar melhor com ele”, aconselha o jornalista. Sobre as outras áreas, o editor considera que nas artes-plásticas e na literatura, principalmente, o Espírito Santo está bem representado.


Das canções de Maysa para livro biográfico

O convite feito pelo jornalista e escritor Antônio de Pádua Gurgel, para escrever uma biografia da cantora Maysa Figueira Monjardim (1936 – 1977), foi um dos mais representativos de sua carreira. Ele não hesitou. Pediu licença do jornal A Gazeta e dedicou três meses para escrever a obra. “Foi uma possibilidade incrível, um passo profissional muito representativo, pois sempre quis registrar idéias e entrevistas em livro. Então juntei o útil ao agradável. Foi fascinante!”, assegura Santos Neves.

O autor considera a produção de uma biografia algo desafiadora de se realizar. “A biografia é uma grande reportagem. Você tem que entrevistar, checar os dados, pesquisar, ler e encadear uma história. Às vezes, um determinado trecho falta informação e você tem que descobrir de qualquer jeito”, revela o autor. Maysa foi lançado em 2004, e faz parte da Coleção Grandes Nomes do Espírito Santo.


De conversa em conversa, surge o MPB

O período estipulado foi de dez anos. O jornalista José Roberto Santos Neves registrou em seu livro, “MPB: De conversa em conversa” (2006), os bastidores das entrevistas realizadas com os maiores nomes da música popular brasileira. Todas foram publicadas no Caderno Dois, do jornal A Gazeta, de 1995 a 2005.

Os critérios de seleção utilizados foram à representatividade do artista no cenário nacional e o conteúdo revelado por eles. Foi o autor quem fez toda a produção, redação e edição da obra. Para isso, ele cursou uma pós-graduação em Gestão em Assessoria de Comunicação, na Faesa, tendo o livro como tema de sua monografia.

Para a obra, o jornalista escolheu artistas de diferentes estilos, que vão desde Roberto Carlos, Caetano Veloso, Lenine, Martinho da Vila, Lobão, até a popular Ivete Sangalo. “O copião das entrevistas, que é aquele material que a gente descarta, foi a base para este livro. Uma dica que deixo aos jornalistas é de não jogar fora este material, o que acontece muitas vezes por falta de espaço. Eu recuperei e reconstruí tudo e escrevi em forma de crônica. As pessoas têm curiosidade em saber não só o diálogo com o artista, mas o que não entrou na matéria”, aconselha o autor.

A capacidade de transformar - A luta da mãe que teve o filho assassinado por policiais

Uma foto enfeita a parede da pequena sala. Seus olhos brilham ao ver o rapaz, moreno e sorridente, na baía de Vitória. Ela conta que ele, Pedro Narcot, sempre lhe roubava um beijo e era o único que lhe conhecia como a palma da mão. Estourava pipocas grandes na panela de pressão e trazia laranjas cortadas para assistirem televisão. Assim, em uma pausa profunda, sorriso no rosto e com as mãos no peito, Maria das Graças Nacort derrama mais uma lágrima, ao lembrar de Pedrinho, seu filho, assassinado por quatro policiais na rua Sete, no centro da cidade.

O ano era 1999. Pedrinho, com seus vinte e seis anos, saíra para comprar um cigarro. “Não demore muito, meu filho, e tome cuidado ao andar nessas ruas”, alertou a mãe. Depois de alguns minutos, a campainha do apartamento tocou. “Senhora, preciso de sua autorização para liberar o corpo de seu filho”, disse o policial. Vinte e dois tiros a queima roupa definiram que, a partir daquele momento, a vida de Maria das Graças nunca mais seria a mesma.

Até hoje ninguém sabe explicar o motivo do assassinato, pois Pedro Narcot era inocente. No início, os culpados não tinham nome e nem rosto, sabia-se apenas que eram policiais. Maria, inconformada, teve que fazer uma investigação particular, pois não podia contar com o apoio daquela que deveria ajuda-la – a polícia. Para isso, teve que se transformar e passar a viver como mendiga, pois alguns deles haviam presenciado o extermínio de seu “menino”. “Fiquei irreconhecível. Meus cabelos eram desgrenhados, minha roupa era suja, andava até descalça. Corri o risco de apanhar e até de morrer. Mas tinha que descobrir quem eram os assassinos”, desabafa.

Associação. Naquele mesmo ano, o sentimento de indignação a fez erguer a cabeça e tomar uma atitude. Fundou a Associação de Mães e Familiares Vítimas de Violência, a AMAFAVV. A entidade ajuda e auxilia os familiares que tiveram seus entes assassinados, principalmente, por policiais. “Sou uma praga para eles (policiais). Enquanto todo mundo tem medo de falar, eu grito para quem quiser ouvir. Vivo recebendo aviso de morte, mas quem cuida de mim é Deus. Então, vou até o fim.”, declara.

A Associação ajuda desde a providência do enterro, até as questões jurídicas. “Tem mãe que não sabe nem por onde começar. Para algumas, falta dinheiro para tudo. Nós acompanhamos estes familiares em todo o processo e conseguimos, pelo menos, um enterro digno”, ressalta a fundadora. Além disso, ela conta com a ajuda de um excelente advogado que cuida da parte dos processos. “Tentamos preservar a identidade das pessoas que nos ajudam, para própria segurança delas. Infelizmente, não podemos trabalhar em paz”, desabafa.

O trabalho é intenso na Associação. “Todos os dias, alguém passa por aqui. Às vezes, num mesmo dia, umas dez mães nos procuram”, constata a presidente. Mas a escassez de recursos compromete o andamento da entidade. “Todo meu dinheiro do INSS aplico aqui. Além desse dinheiro, sobrevivemos de doações. Não conseguimos apoio nem de prefeitura e nem de governo algum. Estamos devendo seis meses de aluguel, mas quando nos expulsarem daqui, vou montar o escritório nas escadarias da prefeitura”, avisa Maria das Graças.


Esperança de outras “Maria das Graças”

Durante anos, os assassinos de Pedro Nacort não tinham nome. Hoje Maria das Graças não somente sabe quem são, como também colocou dois para enfrentarem o julgamento no tribunal de júri popular. “Falta muito pouco para haver justiça. Pelo menos um tem que pagar pelo crime. Não considero como vingança, mas como justiça. A de Deus já está guardada, e a dos homens tem que acontecer”, afirma.

A AMAFAVV também conta com outras conquistas. “As pessoas não sabem dos seus direitos, mas nós as esclarecemos. Os familiares das vítimas de violência têm direito a indenização pelo Estado. Já ganhamos muitas causas, mas as pessoas têm medo de correr atrás”, analisa a diretora.

Maria das Graças Nacort é reconhecida pelo trabalho que faz. “Sou valorizada por instituições estrangeiras. Estou inclusa até na ONU. Por aqui, o reconhecimento é menor, mas fico feliz em receber o Título de Cidadã Vitoriense”, conta. “Mas meu grande sonho é que as pessoas não tenham medo de lutar por justiça e nem de calar diante dessas injustiças. Quero que outras Maria das Graças surjam, mesmo quando eu não estiver mais neste mundo”, diz emocionada.

Ser mãe, mulher e profissional ao mesmo tempo - Os desafios do século XXI

Parece que hoje, as mulheres estão vivendo num mundo fantástico, onde precisam ser como aquelas personagens – as super-heroínas. O sentimento é de ter que matar um leão a cada dia e ainda estar linda, cheirosa e com as unhas bem feitas. Exagero?! Está bem. Mas o que você tem a dizer da rotina de acordar às seis da manhã; ter uma jornada de trabalho entre oito a dez horas por dia; criar e educar duas filhas pequenas; amar e ser amada pelo marido; administrar a casa e ter um corpo, mente e espírito que sempre insistem em somatizar as aflições? Convenhamos, isso é uma tarefa quase impossível, digna de uma “super-mulher”.

Isso não é ficção para Marilene Mattos, 36, professora e coordenadora do curso de Comunicação Social da Faesa, em Vitória, capital do Espírito Santo. Em entrevista concedida no seu trabalho, em meio aos telefonemas e papeladas para assinar, ela fala com seu jeito doce e firme, sobre questões da mulher na contemporaneidade – o difícil papel de ser profissional, mãe e mulher ao mesmo tempo.

De forma simples e saudosa, ela recorda da sua graduação em jornalismo na Universidade Federal do Espírito Santo, a Ufes. Não esquece de dizer, também, da pós-graduação em Comunicação Organizacional na mesma Instituição. Trabalhou na tv Tribuna e, desde 1999, integrou à equipe de professores da Faesa. O convite para a coordenação já havia sido realizado outras vezes, mas somente quando se sentiu preparada é que ela assumiu a responsabilidade. “Não era um sonho ir para a coordenação, até porque o ritmo é intenso. Mas já acompanhava este tipo de trabalho em outras gestões. Naquele momento, vi a possibilidade de ajudar. Sou assim, enquanto acredito que posso ajudar eu fico, quando perceber que não estou contribuindo, deixo a função”, afirma Marilene.

Com a serenidade e a determinação típica dos líderes, ela fala de sua meta em transformar o curso de Comunicação em referência, pelo menos, na região Sudeste. “Algumas coisas estão inacabadas. O curso de jornalismo merece mais. Não pretendo deixar a coordenação antes dele ter um conceito decente no Enade”, diz pausadamente a coordenadora.

As crianças. De repente, os olhos brilham e o sorriso aparece quando o assunto são as duas filhas – Luíza, de quatro anos e Helena, de apenas 11 meses. Marilene não se ilude, e afirma que a maternidade deixa a vida de pernas para o ar. Apesar de considerar ser uma “tarefa” difícil, ela se rende aos encantos das meninas. “Tem dias que dá tudo errado. Mas quando você chega em casa e tem uma pessoa que fica feliz pelo simples fato de você existir, é muito recompensador”, se emociona.

Estas horas inesquecíveis são contadas. Com o dever de cumprir as outras obrigações, os minutos ficam restritos para as filhas. "Não quero ter esses conflitos de compensar os momentos de ausência. Converso muito com elas e tento explicar as situações da melhor forma possível. Se deixar, você começa a conviver com as chantagens. E daqui a alguns anos, elas não vão mais precisar tanto de mim”, ressalta Marilene.

Apesar de querer que o dia fosse mais longo, a vida lhe presenteou com um companheiro dedicado. “Tenho a sorte de ter um marido muito participativo. De fato ele é um grande pai. Sei que ele vai pegar as meninas na escola e levar para nossa casa”, conta confiante. Além disso, ela revela sua carta coringa – a secretária do lar que trabalha na residência há dez anos. “Ela é o meu braço direito e o esquerdo. Falo que é a dona da casa”, brinca.

E eu? Uma das reclamações, ou melhor, o ponto a ser melhorado é com relação a si mesma. “O que estou precisando é arranjar tempo para mim. Isso ainda não aprendi. Até porque a minha agenda pessoal é atropelada pela rotina do trabalho”, lamenta Marilene. A constante dor na coluna e a extrema insônia são fatores que não a faz a desistir de si mesma. “Se eu dedico este tempo para mim, trabalho melhor, vou conviver bem com minha família e ter mais paciência com minhas filhas e com as situações do dia-a-dia. Espero que antes dos 40 eu aprenda”, afirma.

Marilene Mattos termina dizendo que sua vida não é melhor ou pior do que qualquer outra. “Eu tento colocar que a minha rotina não é a mais estressante. Não é a melhor e nem a pior. É só mais uma. Tento não entrar em crise com essa história”, constata feliz.

Sempre chega a hora - O longo caminho percorrido para a realização de um sonho

Foram muitos anos de espera. Primeiro veio o amor, que lhe rendeu muitos lares e poucas raízes. A cada usina implantada pelo marido, o sonho pelo canudo era adiado. Seriam cinco filhos, se uma trágica gravidez de risco não elevasse à condição de anjos, seus dois filhos gêmeos. Mas a vida é fato e seus dias eram preenchidos pela casa, com a fiel máquina de costura e ao som das histórias de ninar suas crianças.

As horas passavam, e junto, uma frase sempre a martelava: “Um dia vou entrar na faculdade, me formar e realizar todos os meus sonhos”. Mais de trinta anos se passaram. Hoje, Marina Barreto conta com a experiência dos seus 52 anos. Formou seus filhos, aposentou o marido. Sua mão que antes segurava o lar e a família ficou livre para agarrar o lápis e o caderno. Entrou para o ensino superior e, a todo momento, prova para si mesma que sempre fez a coisa certa.

terça-feira, 1 de abril de 2008

O chouriço no bar do Armando - uma pesquisa antropológica

O relógio marcava meio-dia – é hora de almoçar. Eu e Marina resolvemos comer no restaurante “self-service” da Tia Quinha, em São Pedro, para depois fazer a atividade em campo num boteco do bairro. Quando chagamos lá, ficamos felizes por ter um barzinho bem na frente do estabelecimento. Procuramos uma mesa com visão estratégica para o bar. A comida era simples. Ao retornarmos para a mesa, um senhor havia sentado exatamente na cadeira que tínhamos reservado. Quando sentei para comer, o homem reclamou do atendimento. “O atendimento aqui é péssimo. Querem escolher o que eu vou comer. Assim não dá, sou eu quem decide o quero comer!”, reclamava. Ficou mais um pouco e saiu insatisfeito. Eu e Marina terminamos de almoçar.

Resolvemos ir ao boteco da frente do restaurante, pois tínhamos reparado que havia uma mulher trabalhando nele, o que nos confortou. Chegando à porta, o senhor que saíra do restaurante estava lá, fazendo sua “horinha”. “Por que o senhor não almoçou?”, perguntei. E ele repetiu que eles queriam escolher sua comida. Haviam três homens no bar. Atrás do balcão, a mulher e outro homem trabalhavam. Por já ter tido contato com o senhor que não almoçou, resolvemos entrar. Pedimos um refrigerante.

A televisão de 17 polegadas, estava instalada pelo suporte que fica na parede. Estava ligada no canal A Tribuna. O programa era o jornal e tratava do assunto sobre o acidente que envolvera uma senhora e as telhas da rodoviária de Vila Velha. “Como é que as pessoas vão se proteger? Na hora a gente fica desesperada. Coitada da mulher que teve três fraturas na coluna. Isso vai trazer seqüela para ela”, disse a mulher do bar.

O bar não só vendia muitos tipos de pingas e outras bebidas alcoólicas, como também papel higiênico, cigarros, comidas. Os salgados dispostos numa estufa aparentam ser gordurosos e fritos em gordura velha. Haviam coxas de frango, pastéis assados, lingüiças. Um outro tira-gosto preto me chamou a atenção.

- Desculpe, mas o que é isso?, perguntei.
- Chouriço. Disse o homem.
- E de que é feito?
- De sangue de porco. É comida de mineiro.
Marina disse que ela gostava, mas a aparência era estranha.
- Se eu não tivesse acabado de almoçar, iria experimentar. Disse por educação.

Mas para minha surpresa, o senhor pegou a faca, cortou um pedaço e me deu para experimentar. Por dentro era roxo. A consistência era pastosa e parecia ter outros ingredientes misturados, como cebola e cheiro-verde. A verdade era que eu não estava nem um pouco com vontade de experimentar, pelo contrário, queria nunca ter que colocar o chouriço na boca. Mas como ele tinha sido tão prestativo e atencioso, não pude como recusar. Comi um pouco. A sensação foi uma das piores que já tinha vivido. O gosto, na minha concepção era pior do que horrível, se isso é possível. Minha primeira atitude foi a de tomar muita coca-cola, para tirar “aquilo” da boca. Olhei para o chouriço e constatei que se engolisse o restante, iria passar mal. Delicadamente disse que não queria mais (foi uma atitude imprópria, mas, sensata). Marina então pediu para experimentar. Para minha surpresa ela adorou! E comeu tudo com a maior tranqüilidade. Naquele momento, constatei que há gosto para tudo. E o meu era bem diferente da Marina.

O dinheiro é guardado em uma caixa de papelão, uma antiga caixa de vinhos. As notas são misturadas com as moedas. No alto, estão penduradas duas imagens de Nossa Senhora de Aparecida e outro crucifixo de Jesus. Muitas caixas de cervejas ficam empilhadas por todo o lugar. Os cigarros vendidos, o maço ou varejo, são de várias marcas nacionais. Inclusive, de palha e rolo de fumo. Os preços no balcão são escritos por canetinhas e grudados com fita crepe. No canto do bar, existe um banheiro, tendo uma caixa d’água colocada no alto e a vista. Haviam duas geladeiras de modelo antigos e um freezer horizontal. Recorte de jornais e figurinhas do botafogo enfeitavam as máquinas. Papéis administrativos, contas e lembretes ficam pendurados na parede, do lado de dentro do balcão. Na parede, existe uma placa feita de madeira com o dizer “não vendo fiado”. Haviam muitas chaves dependuradas numa corda no balcão. “São de clientes que esquecem pelo chão. Hoje até tem pouco, já teve dia que tinham mais de 8 esquecidas”, revelou seu Armando.


O jornal tinha acabado. Perguntei ao senhor qual era seu nome. Senhor Armando, é dono do bar há 15 anos. Disse que trabalha de segunda a segunda. O dia começa às 8hs e fecha à meia-noite nos dias de semana e, às 3hs, nos finais de semana. Seu bar é referencia no bairro e nos vizinhos também, conta orgulhoso. Nasceu no interior de Minas, perto de Manhuaçu, e é o mais velho de 12 filhos. Revela, também, que sua mãe tinha 21 irmãos. “Naquela época se namorava muito”. Assim, “seu” Armando começa a revelar vários detalhes. Diz que, “se ainda estiver vivo”, em maio completará 61 anos. Fala que é um homem cansado e que antes trabalhava até às seis da manhã. Ele é grisalho, estatura mediana e acima do peso ideal para a altura. Já sua mulher tem cabelos negros, estatura média para mulheres e com aparência de possuir uns 40 anos.

Durante a conversa, várias pessoas chegavam para comprar uma dose de bebida alcoólica – vinhos, cachaças, pingas e outras que não consegui identificar. Um dos clientes comprou um vinho e contou que seu conhecido havia caído no chão e que por ali ficou. Mas ressaltava que a garrafa de pinga que estava cheia não quebrou com a queda, somente a vazia. Assim, ele chamou o “Cepacol” para que pegasse a garrafa cheia do bêbado caído.

Aquele ambiente que, num primeiro momento, parecia totalmente hostil apresentou-se receptivo a todos. O atendimento foi de primeira qualidade e saímos satisfeitas por termos tido aquela breve experiência.