O relógio marcava meio-dia – é hora de almoçar. Eu e Marina resolvemos comer no restaurante “self-service” da Tia Quinha, em São Pedro, para depois fazer a atividade em campo num boteco do bairro. Quando chagamos lá, ficamos felizes por ter um barzinho bem na frente do estabelecimento. Procuramos uma mesa com visão estratégica para o bar. A comida era simples. Ao retornarmos para a mesa, um senhor havia sentado exatamente na cadeira que tínhamos reservado. Quando sentei para comer, o homem reclamou do atendimento. “O atendimento aqui é péssimo. Querem escolher o que eu vou comer. Assim não dá, sou eu quem decide o quero comer!”, reclamava. Ficou mais um pouco e saiu insatisfeito. Eu e Marina terminamos de almoçar.
Resolvemos ir ao boteco da frente do restaurante, pois tínhamos reparado que havia uma mulher trabalhando nele, o que nos confortou. Chegando à porta, o senhor que saíra do restaurante estava lá, fazendo sua “horinha”. “Por que o senhor não almoçou?”, perguntei. E ele repetiu que eles queriam escolher sua comida. Haviam três homens no bar. Atrás do balcão, a mulher e outro homem trabalhavam. Por já ter tido contato com o senhor que não almoçou, resolvemos entrar. Pedimos um refrigerante.
A televisão de 17 polegadas, estava instalada pelo suporte que fica na parede. Estava ligada no canal A Tribuna. O programa era o jornal e tratava do assunto sobre o acidente que envolvera uma senhora e as telhas da rodoviária de Vila Velha. “Como é que as pessoas vão se proteger? Na hora a gente fica desesperada. Coitada da mulher que teve três fraturas na coluna. Isso vai trazer seqüela para ela”, disse a mulher do bar.
O bar não só vendia muitos tipos de pingas e outras bebidas alcoólicas, como também papel higiênico, cigarros, comidas. Os salgados dispostos numa estufa aparentam ser gordurosos e fritos em gordura velha. Haviam coxas de frango, pastéis assados, lingüiças. Um outro tira-gosto preto me chamou a atenção.
- Desculpe, mas o que é isso?, perguntei.
- Chouriço. Disse o homem.
- E de que é feito?
- De sangue de porco. É comida de mineiro.
Marina disse que ela gostava, mas a aparência era estranha.
- Se eu não tivesse acabado de almoçar, iria experimentar. Disse por educação.
Mas para minha surpresa, o senhor pegou a faca, cortou um pedaço e me deu para experimentar. Por dentro era roxo. A consistência era pastosa e parecia ter outros ingredientes misturados, como cebola e cheiro-verde. A verdade era que eu não estava nem um pouco com vontade de experimentar, pelo contrário, queria nunca ter que colocar o chouriço na boca. Mas como ele tinha sido tão prestativo e atencioso, não pude como recusar. Comi um pouco. A sensação foi uma das piores que já tinha vivido. O gosto, na minha concepção era pior do que horrível, se isso é possível. Minha primeira atitude foi a de tomar muita coca-cola, para tirar “aquilo” da boca. Olhei para o chouriço e constatei que se engolisse o restante, iria passar mal. Delicadamente disse que não queria mais (foi uma atitude imprópria, mas, sensata). Marina então pediu para experimentar. Para minha surpresa ela adorou! E comeu tudo com a maior tranqüilidade. Naquele momento, constatei que há gosto para tudo. E o meu era bem diferente da Marina.
O dinheiro é guardado em uma caixa de papelão, uma antiga caixa de vinhos. As notas são misturadas com as moedas. No alto, estão penduradas duas imagens de Nossa Senhora de Aparecida e outro crucifixo de Jesus. Muitas caixas de cervejas ficam empilhadas por todo o lugar. Os cigarros vendidos, o maço ou varejo, são de várias marcas nacionais. Inclusive, de palha e rolo de fumo. Os preços no balcão são escritos por canetinhas e grudados com fita crepe. No canto do bar, existe um banheiro, tendo uma caixa d’água colocada no alto e a vista. Haviam duas geladeiras de modelo antigos e um freezer horizontal. Recorte de jornais e figurinhas do botafogo enfeitavam as máquinas. Papéis administrativos, contas e lembretes ficam pendurados na parede, do lado de dentro do balcão. Na parede, existe uma placa feita de madeira com o dizer “não vendo fiado”. Haviam muitas chaves dependuradas numa corda no balcão. “São de clientes que esquecem pelo chão. Hoje até tem pouco, já teve dia que tinham mais de 8 esquecidas”, revelou seu Armando.
O jornal tinha acabado. Perguntei ao senhor qual era seu nome. Senhor Armando, é dono do bar há 15 anos. Disse que trabalha de segunda a segunda. O dia começa às 8hs e fecha à meia-noite nos dias de semana e, às 3hs, nos finais de semana. Seu bar é referencia no bairro e nos vizinhos também, conta orgulhoso. Nasceu no interior de Minas, perto de Manhuaçu, e é o mais velho de 12 filhos. Revela, também, que sua mãe tinha 21 irmãos. “Naquela época se namorava muito”. Assim, “seu” Armando começa a revelar vários detalhes. Diz que, “se ainda estiver vivo”, em maio completará 61 anos. Fala que é um homem cansado e que antes trabalhava até às seis da manhã. Ele é grisalho, estatura mediana e acima do peso ideal para a altura. Já sua mulher tem cabelos negros, estatura média para mulheres e com aparência de possuir uns 40 anos.
Durante a conversa, várias pessoas chegavam para comprar uma dose de bebida alcoólica – vinhos, cachaças, pingas e outras que não consegui identificar. Um dos clientes comprou um vinho e contou que seu conhecido havia caído no chão e que por ali ficou. Mas ressaltava que a garrafa de pinga que estava cheia não quebrou com a queda, somente a vazia. Assim, ele chamou o “Cepacol” para que pegasse a garrafa cheia do bêbado caído.
Aquele ambiente que, num primeiro momento, parecia totalmente hostil apresentou-se receptivo a todos. O atendimento foi de primeira qualidade e saímos satisfeitas por termos tido aquela breve experiência.
Resolvemos ir ao boteco da frente do restaurante, pois tínhamos reparado que havia uma mulher trabalhando nele, o que nos confortou. Chegando à porta, o senhor que saíra do restaurante estava lá, fazendo sua “horinha”. “Por que o senhor não almoçou?”, perguntei. E ele repetiu que eles queriam escolher sua comida. Haviam três homens no bar. Atrás do balcão, a mulher e outro homem trabalhavam. Por já ter tido contato com o senhor que não almoçou, resolvemos entrar. Pedimos um refrigerante.
A televisão de 17 polegadas, estava instalada pelo suporte que fica na parede. Estava ligada no canal A Tribuna. O programa era o jornal e tratava do assunto sobre o acidente que envolvera uma senhora e as telhas da rodoviária de Vila Velha. “Como é que as pessoas vão se proteger? Na hora a gente fica desesperada. Coitada da mulher que teve três fraturas na coluna. Isso vai trazer seqüela para ela”, disse a mulher do bar.
O bar não só vendia muitos tipos de pingas e outras bebidas alcoólicas, como também papel higiênico, cigarros, comidas. Os salgados dispostos numa estufa aparentam ser gordurosos e fritos em gordura velha. Haviam coxas de frango, pastéis assados, lingüiças. Um outro tira-gosto preto me chamou a atenção.
- Desculpe, mas o que é isso?, perguntei.
- Chouriço. Disse o homem.
- E de que é feito?
- De sangue de porco. É comida de mineiro.
Marina disse que ela gostava, mas a aparência era estranha.
- Se eu não tivesse acabado de almoçar, iria experimentar. Disse por educação.
Mas para minha surpresa, o senhor pegou a faca, cortou um pedaço e me deu para experimentar. Por dentro era roxo. A consistência era pastosa e parecia ter outros ingredientes misturados, como cebola e cheiro-verde. A verdade era que eu não estava nem um pouco com vontade de experimentar, pelo contrário, queria nunca ter que colocar o chouriço na boca. Mas como ele tinha sido tão prestativo e atencioso, não pude como recusar. Comi um pouco. A sensação foi uma das piores que já tinha vivido. O gosto, na minha concepção era pior do que horrível, se isso é possível. Minha primeira atitude foi a de tomar muita coca-cola, para tirar “aquilo” da boca. Olhei para o chouriço e constatei que se engolisse o restante, iria passar mal. Delicadamente disse que não queria mais (foi uma atitude imprópria, mas, sensata). Marina então pediu para experimentar. Para minha surpresa ela adorou! E comeu tudo com a maior tranqüilidade. Naquele momento, constatei que há gosto para tudo. E o meu era bem diferente da Marina.
O dinheiro é guardado em uma caixa de papelão, uma antiga caixa de vinhos. As notas são misturadas com as moedas. No alto, estão penduradas duas imagens de Nossa Senhora de Aparecida e outro crucifixo de Jesus. Muitas caixas de cervejas ficam empilhadas por todo o lugar. Os cigarros vendidos, o maço ou varejo, são de várias marcas nacionais. Inclusive, de palha e rolo de fumo. Os preços no balcão são escritos por canetinhas e grudados com fita crepe. No canto do bar, existe um banheiro, tendo uma caixa d’água colocada no alto e a vista. Haviam duas geladeiras de modelo antigos e um freezer horizontal. Recorte de jornais e figurinhas do botafogo enfeitavam as máquinas. Papéis administrativos, contas e lembretes ficam pendurados na parede, do lado de dentro do balcão. Na parede, existe uma placa feita de madeira com o dizer “não vendo fiado”. Haviam muitas chaves dependuradas numa corda no balcão. “São de clientes que esquecem pelo chão. Hoje até tem pouco, já teve dia que tinham mais de 8 esquecidas”, revelou seu Armando.
O jornal tinha acabado. Perguntei ao senhor qual era seu nome. Senhor Armando, é dono do bar há 15 anos. Disse que trabalha de segunda a segunda. O dia começa às 8hs e fecha à meia-noite nos dias de semana e, às 3hs, nos finais de semana. Seu bar é referencia no bairro e nos vizinhos também, conta orgulhoso. Nasceu no interior de Minas, perto de Manhuaçu, e é o mais velho de 12 filhos. Revela, também, que sua mãe tinha 21 irmãos. “Naquela época se namorava muito”. Assim, “seu” Armando começa a revelar vários detalhes. Diz que, “se ainda estiver vivo”, em maio completará 61 anos. Fala que é um homem cansado e que antes trabalhava até às seis da manhã. Ele é grisalho, estatura mediana e acima do peso ideal para a altura. Já sua mulher tem cabelos negros, estatura média para mulheres e com aparência de possuir uns 40 anos.
Durante a conversa, várias pessoas chegavam para comprar uma dose de bebida alcoólica – vinhos, cachaças, pingas e outras que não consegui identificar. Um dos clientes comprou um vinho e contou que seu conhecido havia caído no chão e que por ali ficou. Mas ressaltava que a garrafa de pinga que estava cheia não quebrou com a queda, somente a vazia. Assim, ele chamou o “Cepacol” para que pegasse a garrafa cheia do bêbado caído.
Aquele ambiente que, num primeiro momento, parecia totalmente hostil apresentou-se receptivo a todos. O atendimento foi de primeira qualidade e saímos satisfeitas por termos tido aquela breve experiência.
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